Crianças e o ócio: resgatando o equilíbrio para uma infância saudável.
Compreender o equilíbrio entre as atividades necessárias e o ócio na vida das crianças é fundamental para seu desenvolvimento saudável. Hoje em dia as crianças têm rotinas altamente planejadas, repletas de atividades estruturadas que podem torná-las demasiadamente ocupadas e estressadas. Embora estas atividades possam ter um valor inegável, é vital garantir que as crianças também tenham tempo suficiente para o descanso e o ócio reparador.
Por isso, hoje falaremos sobre a necessidade das crianças terem tempo livre não estruturado. Além disso, veremos como o excesso de programação pode afetar a saúde e o bem-estar das crianças. Por outro lado, abordaremos maneiras eficazes de alcançar um equilíbrio saudável. Portanto, nossa meta é proporcionar uma perspectiva abrangente que possa ajudar pais, cuidadores e educadores a tomar decisões mais informadas e benéficas para as crianças em suas vidas.

Ócio: Um componente esquecido da infância
Você também sente que está em constante movimento? Começa a segunda-feira contando os dias para o próximo final de semana? Isso é comum em culturas onde o ócio, a tranquilidade e o silêncio não são valorizados. E se nós, que somos adultos, nos estressamos com rotinas cheias e pesadas, imagine como isso afeta nossas crianças. Estamos ensinando as próximas gerações que estar “sempre ligado” é o normal.
Já notou que, na nossa rotina acelerada, às vezes entramos no modo de piloto automático e experimentamos uma espécie de “branco”? Isso acontece com todos – comigo, com você, e até com a criança que mora dentro da sua casa ou frequenta sua sala de aula. A razão? Aos poucos, nos esquecemos de preservar o ócio em nosso dia a dia.
Sim! Ócio – a sensação deliciosa de não fazer nada específico e simplesmente desligar nossa mente por alguns momentos. Deliciosa sim, mas cada vez mais escassa. Muitos de nós incluisve se esqueceram da sua habilidade de experimentar o ócio sem culpa. Mas, talvez sem perceber, estamos transmitindo outra coisas às próximas gerações: necessidade de aceleração, pressa, futilidade do tempo criativo.
Falando sobre o ócio, Mario Sergio Cortella o define como:
´Dedicar uma parte da sua existência e uma parte do seu tempo de vida a pensar sobre o sentido de viver.
Mario Sergio Cortella
Como profissional da área da Edicação Infantil te convido a fazer uma experiência. Vá a um restaurante onde não há brinquedos, num almoço de domingo, e observe o comportamento das crianças à sua volta. O que elas estão fazendo?

Como o ócio beneficia nossas vidas?
Em meio à agitação e rapidez da vida que levamos hoje em dia, equipamentos eletrônicos que nos ajudem a aligeirar a execução do que precisamos e “ganhar tempo” se tornaram ferramentas valiosas. Entretanto, esses mesmos mecanismos podem se tornar uma cilada: acabamos por preencher o tempo livre obtido, com mais tarefas e afazeres. Com isso nos vemos em uma grande contradição: cumprir as tantas obrigações autoimpostas e o desejo de nos libertar dessas tarefas para, assim, poder usufruir um tempo para nós mesmos (AQUINO et. al, 2007).
Mas com nossas crianças não tem sido diferente!
Lembra o experimento do restaurante proposta no início desse texto? A resposta provavelmente será a mesma, onde quer você esteja. A maioria dessas crianças estarão imersas em seus celulares, tablets, jogos eletrônicos e aplicativos. No entanto estes são apenas uma peça no quebracabeça do consumismo desenfreado que acaba por deteriorar, coisificar e empobrecer de significados o tempo livre que deveria ser utilizado para o ócio reparador, contato social, estar com outras pessoas.

O papel da escola nessa equação
Quando falamos em ocio na infância, a escola pode ter um papel agravante. É que existe uma tendência da educação formal prepará-las principalmente para o mercado de trabalho e a execução eficiente de tarefas. Isso acaba limitando seu potencial criativo e confinando suas habilidades a funções específicas e úteis. Em contrapartida, a educação deveria permitir que a criança extrapole todas as funções predefinidas e descubra suas próprias, explorando o vasto potencial de que são capazes! Como pais e educadores não podemos ignorar as reais necessidades e conhecimentos pré-existentes das crianças. Não é apenas o conhecimento do adulto que tem valor!
A educação costuma sonegar o direito ao ócio; observa-se que as escolas tendem a preparar a criança para a importância da profissão e do trabalho no futuro, isto é, preparam crianças e jovens para a vida adulta moldada pelo trabalho, porém não há orientação nesse processo para o uso adequado do tempo de ócio, um fator de vital importância para a edificação de um indivíduo equilibrado . (AQUINO et. al, 2007)
Se fomos capazes de superar uma sociedade disciplinar, como aponta Venturini et. al (2020), também somos capazes de superar a sociedade do desempenho, que insiste em um controle baseado apenas em observar, registrar e avaliar. Infelizmente, essas práticas ainda estão presentes, ainda que de maneira generalizada, em documentos normativos oficiais como as Diretrizes Curriculares e a BNCC. Estes documentos ainda impõem a necessidade constante de demonstração de interesse por parte das crianças.
Há o paradoxo do enunciado da criança protagonista, da criança e seus interesses como centro do processo educativo, juntamente do enunciado do registro e da visibilidade permanente na produção das crianças. Por isso, podemos problematizar se as crianças estão no centro dos processos educativos ou a avaliação e o registro de sua produção a qualquer custo. (VENTURINI et. al, 2020)
O ócio deve ser considerado também como experiência do exercício do pensamento, pois é através da experiência vivida que conseguimos repensar, refletir e averiguar se o que estamos experienciando atende ou não as nossas expectativas.

Porque crianças precisam de tempo livre?
Todos precisamos de tempo livre para nos deslocarmos dessa visão voltada estritamente para a produção, resultado e alto desempenho – o tempo todo! Para as crianças, a brincadeira se basta, pois oferece tempo para o pensamento, que se produz e constitui por meio do ócio.
Não se trata de não querer fazer nada. Muito pelo contrário. Mas é necessário nos questionarmos para onde queremos levar nossas crianças. Brincar é a forma como as crianças se conectam com o mundo e com o outro. É no brincar que elas conseguem atribuir sentido a tudo o que vivenciam e que conseguem se construir enquanto sujeitos no mundo!
O ócio na construção do crescimento
O ócio permite que a criança (e até o adulto) tenha algo tão escasso quanto precioso: tempo! Não o tempo cronológico, contado a cada batida do relógio. Mas tempo para reflexão, criar, brincar… Precisamente, tempo para que ela possa experimentar a vida e o pensamento de outros modos.
Quando a criança brinca, ela suspende o tempo. Na arte do faz de conta, do “imitar a vida”, ela cria a sua própria possibilidade de pensamento. Já notou que crianças pequenas brincam sempre, e com aquilo que possuem? Pedra vira giz, pedaço de madeira vira ponte, sabugo de milho vira boneca.
Pense que a brincadeira está para a criança, assim como o trabalho está para o adulto! Nessa brincadeira, a criança passa por uma experiência formativa. Portanto, ao imitar a realidade, a criança traduz o seu pensamento e a sua interpretação daquilo que ela vive, observa e sente.
Mas para que isso ocorra, nossas escolas precisam viabilizar tempo livre para brincar, conviver, participar, explorar, expressar e conhecer-se e aos outros! Tempo para o silêncio, para o questionamento, para o barulho e para a tranquilidade.
A ideia comum de que “não podemos perder tempo” vem de uma construção social que vincula tempo e dinheiro. Entretanto, sob a perspectiva que aqui trazemos, perder tempo é ganhá-lo! Aquele tempo que você pode apreciar algo, se perder em pensamento, trazer à tona memórias já vividas, contemplar os momentos bons da vida: uma criança brincando, um pôr do sol, o mar batendo nas areias da praia. Um tempo de pausa. Enfim, um tempo onde não há necessidade de solucionar problemas ou produzir algo útil.
Enfim, o ócio trará autoconhecimento. E este tem um efeito poderoso: a criança que é capaz de viver o ócio se torna mais eficiente e produtiva, dentro daquilo que realmente lhe interessa.
Os 3 tipos de ócio reparador
A natureza do ócio é diversa e complexa. Assim como vimos, ele é essencial para a nossa restauração e equilíbrio. Neste sentido, vamos abordar os 3 tipos de ócio reparador e entender um pouco mais sobre cada um deles.
- Paliativo: o ócio paliativo tem a função de reequilibrar e reduzir o impacto de algum estado negativo como, estresse, pressão, etc. Ele pode ser estimulado através da prática de esportes ou outras atividades físicas como a caminhada e da meditação. Portanto o foco é acabar com as sensações que provocam o desconforto.
- Anímico: o ócio anímico é aquele que altera o ânimo e a disposição. Bons exemplos são assitir a um show de stand up, ouvir um podcast engraçado ou até assistir uma comédia no seu aplicativo de streaming. Realizar atividades em grupo, que lhe tragam animação e melhora no humor também são um tipo de ócio anímico. Assim, o foco é praticar algo por prazer e gosto, que vai lhe ajudar a enxergar os problemas cotidianos sob um novo viés.
- Social: o ócio social é o estar com o outro que me faz bem. Curtir um tempo com pessoas que te fazem bem te transporta do seu mundo (e seus problemas) para o mundo do outro. Sair para um café ou um barzinho com os amigos, ligar para alguém e jogar conversa fora ou frequentar algum tipo de reunião (da igraja, de amigos, de pessoas com interesses em comum). O ponto central não é o que faço, mas com quem estou.
Maneiras de promover o ócio infantil
A Sociedade Brasileira de Pediatria propõe as seguintes orientações para promover o ócio infantil:
Orientações | |
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1 | Evitar a exposição de crianças menores de dois anos às telas, mesmo que passivamente |
2 | Limitar o tempo de telas ao máximo de uma hora por dia para crianças de dois a cinco anos, sempre com supervisão |
3 | Limitar o tempo de telas ao máximo de uma ou duas horas por dia para crianças de seis a 10 anos, sempre com supervisão |
4 | Limitar o tempo de telas e jogos de videogames a duas ou três horas por dia, sempre com supervisão; nunca “virar a noite” jogando |
5 | Para todas as idades: nada de telas durante as refeições e desconectar uma a duas horas antes de dormir |
6 | Oferecer como alternativas: atividades esportivas, exercícios ao ar livre ou em contato direto com a natureza, sempre com supervisão responsável |
7 | Criar regras saudáveis para o uso de equipamentos e aplicativos digitais, além das regras de segurança, senhas e filtros apropriados para toda família, incluindo momentos de desconexão e mais convivência familiar |
Além disso, incluímos algumas outras recomendações, como:
- Conviver com amigos;
- Frequentar pequenos grupos sociais;
- Realizar atividades de lazer ao ar livre como andar de bicicleta, patins, etc;
- Descansar o mínimo de horas recomendado por dia;
- Manter o hábito da leitura;
- Criar pequenos rituais antes do sono como conversar deitados na cama, ler uma história juntos, momento que criam vínculo e conexão com seu filho.
Um convite aos pais, cuidadores e educadores
Se você leu até aqui, deve ter percebido que uma combinação de fatores impede que as nossas crianças experimentem o ócio no seu dia-a-dia. Alguns desses fatores são:
- a superabundância de informações imediatas, acessíveis com um simples clique ou toque na tela;
- o excesso de tecnologias;
- uma educação que prioriza rendimento e desempenho;
- e a falta de tempo dos pais.
Afinal sabemos que é cada vez mais comum que pais e cuidadores estejam tomados por afazeres. Por conta disso, eles muitaz vezes recorram a tais meios tecnológicos na tentativa de preencher uma lacuna que o ócio poderia enriquecer: momentos de qualidade com aqueles que amamos e cuidamos. Ou seja, trocar ideias, brincar, oferecer apoio ou simplesmente desfrutar do prazer de não fazer nada juntos.
Portanto fazemos um convite a pais, cuidadores e educadores: que busquem incorporar da melhor forma que conseguirem o ócio reparador na rotina das nossas crianças. Assim, veremos benefícios para eles e, certamente, para nós que cuidamos e convivemos com eles.
Nota do editor: uma das belezas proporcionadas pelo mindfulness é retomarmos a nossa capacidade de apreciar momentos de silêncio, contemplação e dedicação ao momento presente, sem nos preocuparmos excessivamente com passado ou futuro. Para aprender a incorporar o mindfulness ou atenção plena no seu dia-a-dia, leia o nosso artigo Mindfulness: conheça os benefícios da atenção plena.

Autora:
Leilane F. Pereira é Pedagoga, especialista em Educação Infantil. Atua como coordenadora pedagógica em uma escola de educação infantil de período integral e é idealizadora da página Radar Pedagógico no Instagram.
Edição: Equipe Mundo Mindful
Referências
AQUINO, C. A. B.; MARTINS, J. C. de O. Ócio, lazer e tempo livre na sociedade do consumo e do trabalho. Revista Mal Estar e Subjetividade, Fortaleza, vol. VII, n. 2, p. 479-500, set. 2007.
SBP atualiza recomendações sobre saúde de crianças e adolescentes na era digital. Sociedade Brasileira de Pediatria, 2020.
Tempo livre e silêncio: o poder do ócio na vida das crianças. Lunetas, 2016.
VENTURINI, G.; SCHULER, B. Pensamento, experiência e o tempo do ócio na educação infantil. CHILDHOOD & Philosophy, Rio de Janeiro, vol. 16, p.01 -27, dez. 2020.